As Observações de Leon Denis.
O Espírito desencarnado acha-se,
além da morte, tal como ele próprio se fez durante sua estada neste
mundo. Nem melhor nem pior. Para domar uma paixão, corrigir uma falta,
atenuar um vício é, algumas vezes, necessária mais de uma existência.
Daí resulta que, na multidão dos Espíritos, os caracteres sérios e
refletidos estão, como na Terra, em minoria, e os Espíritos levianos,
amantes de coisas pueris e vãs, formam numerosas legiões.
O mundo
invisível é, pois, em mais vasta escala, a reprodução do mundo
terrestre. Lá, como aqui, a verdade e a Ciência não são partilha de
todos. A superioridade intelectual e moral só se obtém por um trabalho
lento e contínuo, pela acumulação de progressos realizados no curso de
longa série de séculos.
Sabemos, entretanto, que esse mundo
oculto reage constantemente sobre o mundo corpóreo. Os mortos
influenciam os vivos, os guiam e inspiram à vontade. Os Espíritos
atraem-se em razão de suas afinidades. Os que despiram as vestes carnais
assistem os que ainda estão com elas. Estimulam-nos no caminho do bem;
porém, mais vezes ainda, nos impelem ao do mal.
Os Espíritos
superiores só se manifestam nos casos em que sua presença é útil e pode
facilitar o nosso melhoramento. Fogem das reuniões bulhentas e só se
dirigem a homens animados de intenções puras. Pouco lhes convém as
nossas regiões obscuras. Desde que podem, voltam para os meios menos
carregados de fluidos grosseiros, mas, apesar da distância, não cessam
de velar pelos seus protegidos.
Os Espíritos inferiores,
incapazes de aspirações elevadas, comprazem-se em nossa atmosfera.
Mesclam-se em nossa vida e, preocupados unicamente com o que cativava
seu pensamento durante a existência corpórea, participam dos prazeres e
trabalhos daqueles a quem se sentem unidos por analogias de caráter ou
de hábitos. ALGUMAS VEZES MESMO, DOMINAM E SUBJUGAM AS PESSOAS FRACAS
QUE NÃO SABEM RESISTIR ÀS SUAS INFLUÊNCIAS. EM CERTOS CASOS, SEU IMPÉRIO
TORNA-SE TAL QUE PODEM IMPELIR SUAS VÍTIMAS AO CRIME E À LOUCURA. ;
nesses casos de obsessão e possessão, mais comuns do que se pensa, que
encontramos a explicação de numerosos fatos relatados pela História.
Há
perigo para quem se entrega sem reservas às experimentações espíritas. O
homem de coração reto, de razão esclarecida e madura, pode daí recolher
consolações inefáveis e preciosos ensinos. Mas aquele que só fosse
inspirado pelo interesse material ou que só visse nesses fatos um
divertimento frívolo tornar-se-ia fatalmente o objeto de uma infinidade
de mistificações, joguete de Espíritos pérfidos que, lisonjeando suas
inclinações, seduzindo-o por brilhantes promessas, captariam sua
confiança, para, depois, acabrunhá-lo com decepções e zombarias.
E
portanto, necessária uma grande prudência para se entrar em relação com
o mundo invisível. O bem e o mal, a verdade e o erro nele se misturam,
e, para distingui-los, cumpre passar todas as revelações, todos os
ensinos pelo crivo de um julgamento severo. Nesse terreno ninguém deve
aventurar-se senão passo a passo, tendo nas mãos o facho da razão. Para
expelir as más influências, para afastar a horda dos Espíritos levianos
ou maléficos, basta tornar-se senhor de si mesmo, jamais abdicar o
direito de verificação e de exame; é bastante procurar, acima de tudo,
os meios de se aperfeiçoar no conhecimento das leis superiores e na
prática das virtudes.
Aquele cuja vida for reta, e que procure a
verdade com o coração sincero, nenhum perigo tem a temer. Os Espíritos
de luz distinguem, vêem suas intenções, e assistem-no. Os Espíritos
enganadores e mentirosos afastam-se do justo, como um exército diante de
uma cidadela bem defendida. Os obsessores atacam de preferência os
homens levianos que descuram das questões morais e que em tudo procuram o
prazer ou o interesse.
Leon Denis
O Livro Depois da Morte.
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