Sobre os Espíritos.
Revista Espírita ANO 7
- ABRIL 1864 - Nº. 4 de Kardec
Os Espíritos não são, como se pensa
freqüentemente, seres à parte na criação; são as almas daqueles que viveram sobre
a Terra ou em outros mundos. As almas ou Espíritos são, pois, uma só e mesma coisa;
de onde se segue que quem crê na existência da alma, crê, por isso mesmo, na dos
Espíritos.
Geralmente, faz-se um idéia
muito falsa do estado dos Espíritos; estes não são, como alguns o crêem, seres vagos
e indefinidos, nem chamas como os fogos fátuos, nem fantasmas como nos contos de
assombrações. São seres semelhantes a nós, tendo um corpo como o nosso, mas
fluídico e invisível no estado normal.
Quando a alma está unida ao corpo durante a vida,
ela tem um duplo envoltório:
um pesado, grosseiro e
destrutível que é o corpo;
o outro fluídico, leve
e indestrutível, chamado perispírito.
O perispírito é o laço que une a alma
e o corpo; é por seu intermédio que a alma faz o corpo agir, e que percebe as sensações
sentidas pelo corpo.
A morte não é senão a destruição do
envoltório grosseiro; a alma abandona esse envoltório, como se despe de uma roupa
usada, ou como a borboleta deixa a sua crisálida; mas ela conserva o seu corpo
fluídico ou perispírito.
Uma idéia quase geral entre as pessoas
que não conhecem o Espiritismo é de crer que os Espíritos, só pelo fato de estarem
livres da matéria, devem tudo saber e possuir a soberana sabedoria. Está aí um erro
grave. Deixando o seu envoltório corpóreo,
eles não se despojam imediatamente de suas imperfeições; não é senão com o tempo
que se depuram e se melhoram.
Sendo os Espíritos as almas dos homens,
como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, dê bondade e de maldade,
encontra-se a mesma coisa entre os Espíritos. Há deles que não são senão levianos
e traquinas, outros são mentirosos, velhacos, hipócritas, maus, vingativos; outros,
ao contrário, possuem as mais sublimes virtudes e o saber num
grau desconhecido sobre a Terra. Essa diversidade
na qualidade dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a considerar,
porque explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebem; é a distingui-las
que é preciso sobretudo se empenhar.
Disso resulta que não basta se dirigir
a um Espírito qualquer para ter uma resposta justa a toda pergunta; porque o Espírito
responderá segundo o que sabe, e, freqüentemente, não dará senão a sua opinião pessoal,
que pode ser justa ou falsa. Se for sábio, confessará a sua ignorância sobre o que
não sabe; se for leviano ou mentiroso, responderá sobre tudo sem se importar com
a verdade; dará sua idéia como uma verdade absoluta. Foi por isso que São João o
evangelista disse: "Não creiais em todo Espírito, mas experimentai se os Espíritos
são de Deus." A experiência prova a sabedoria deste conselho. Haveria, pois,
imprudência e leviandade em aceitar sem controle tudo o que vem dos Espíritos.
Os Espíritos não podem responder senão
sobre aquilo que sabem, e, além disso, sobre o que lhes é permitido dizer,
porque há coisas que não devem revelar, porque não é dado ainda aos homens tudo
conhecerem.
Reconhece-se a qualidade
dos Espíritos pela sua linguagem; a dos
Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica,
isenta de toda trivialidade, puerilidade ou contradição; ela respira a sabedoria,
a benevolência e a modéstia; é concisa e sem palavras inúteis. A dos Espíritos inferiores,
ignorantes ou orgulhosos carece dessas qualidades; o vazio das idéias nela é quase
sempre compensado pela abundância das palavras.
Revista Espirita ANO 7
- ABRIL 1864 - Nº. 4 de Kardec
Wilson Moreno
Nenhum comentário:
Postar um comentário