domingo, 23 de abril de 2017

A CARNE É FRACA.



A CARNE É FRACA.

Revista Espirita ANO 12 - MARÇO 1869 - Nº. 3 de Kardec

Provar que o homem é responsável por todos os seus atos é provar a sua liberdade de ação, e provar a sua liberdade, é levantar a sua dignidade. A perspectiva da responsabilidade fora da lei humana é o mais poderoso elemento moralizador: é o objetivo ao qual o Espiritismo conduz pela força das coisas.
 
Segundo as observações fisiológicas que precedem, pode-se, pois, admitir que o temperamento é, pelo menos em parte, determinado pela natureza do Espírito, que é causa e não efeito. Dizemos em parte, porque há casos em que o físico influi evidentemente sobre o moral: é quando um estado mórbido ou anormal é determinado por uma causa externa, acidental, independente do Espírito, como a temperatura, o clima, os vícios hereditários de constituição, uma doença passageira, etc. O moral do Espírito pode então ser afetado em suas manifestações pelo estado patológico, sem que a sua natureza intrínseca seja modificada.
 
DESCULPAR-SE DE SEUS DEFEITOS SOBRE A FRAQUEZA DA CARNE NÃO É, POIS, SENÃO UMA FUGA FALSA PARA ESCAPAR À RESPONSABILIDADE. A CARNE É FRACA PORQUE O ESPÍRITO É FRACO, É EM QUE SE TORNA A QUESTÃO, E DEIXA AO ESPÍRITO A RESPONSABILIDADE DE TODOS OS SEUS ATOS.

A CARNE, QUE NÃO TEM NEM PENSAMENTO NEM VONTADE, NÃO PREVALECE JAMAIS SOBRE O ESPÍRITO, QUE É O SER PENSANTE E QUE QUER, É O ESPÍRITO QUE DÁ À CARNE AS QUALIDADES CORRESPONDENTES AOS SEUS INSTINTOS, COMO O ARTISTA IMPRIME À SUA OBRA MATERIAL A MARCA DE SEU GÊNIO.

O Espírito liberto dos instintos da bestialidade, forma um corpo que não é mais um tirano para assuas aspirações na direção da espiritualidade de seu ser; é quando o homem come para viver, porque viver é uma necessidade, mas não vive mais para comer.
 
A responsabilidade moral dos atos da vida, portanto, permanece inteira; mas a razão diz que as consequências desta responsabilidade devem estar em razão do desenvolvimento intelectual do Espírito; quanto mais o Espírito é esclarecido, mais é indesculpável, porque com a inteligência e o senso moral, nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto. O selvagem, ainda vizinho da animalidade, que cede ao instinto do animal comendo seu semelhante, é, sem contradita, menos culpável que o homem civilizado que comete uma simples injustiça.

Allan Kardec

Revista Espirita ANO 12 - MARÇO 1869 - Nº. 3 de Kardec

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